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sábado, 22 de janeiro de 2011

"Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça"

"Justiça", como já dissemos, significa atitude justa e reta do homem para com Deus. O homem "justo" nos livros sacros, é o homem santo, o homem crístico, o homem que realizou em alto grau o seu Eu divino pela experiência mística manifestada na ética. O homem "justo" é o homem que se guia, invariavelmente, pelos dois grandes mandamentos, o amor de Deus e a caridade do próximo.


Mas, será possível que alguém sofra perseguição por causa dessa justiça, por causa da sua santidade?


O Evangelho de Jesus está repleto de afirmações dessa natureza, e a experiência multissecular o confirma. ―Por causa do meu nome sereis odiados de todos, e chegará a hora em que todo aquele que vos matar julgará prestar um serviço a Deus. ―Arrastarvos-ão perante reis e governadores e sinagogas; mas não vos perturbeis! Porque o servo não está acima de seu senhor; se a mim me perseguiram também vos hão de perseguir a vós. ―Os inimigos do homem são os seus companheiros de casa...


Há duas razões fundamentais por que o homem justo é perseguido por outros homens individuais ou por sociedades humanas.


1 — Um indivíduo persegue outro indivíduo, não só porque este seja mau, mas, também, pelo fato de ser bom.


Por quê?

Porque o homem justo aparece como elemento hostil a outro homem menos justo. A simples presença de um homem mais santo do que eu é, para mim, uma declaração de guerra, ou, pelo menos, uma permanente ofensa. Ora, ninguém tolera, por largo tempo, a consciência da sua inferioridade. Enquanto não aparece outro homem de elevada espiritualidade, pode o homem menos espiritual viver tranqüi lo na sua inferioridade, porque esta não é nitidamente percebida senão quando polarizada pelo contrário ou por uma espiritualidade superior...


Em face dessa inquietação, duas atitudes seriam possíveis: a) o vivo desejo de ser tão espiritual como o outro e o esforço correspondente a esse desejo; b) uma atitude de despeito e agressividade.
A primeira atitude é a dos homens humildes e sinceros; a segunda é a dos homens orgulhosos e insinceros consigo mesmos. Os primeiros se tornam discípulos do homem espiritual, os últimos se tornam seus adversários...


2 — No terreno social das organizações eclesiásticas acresce ao primeiro, outro fator, aparentemente mais justificável: o homem altamente espiritualizado é sempre uma espécie de exceção da regra, é um pioneiro que abandonou as velhas estradas conhecidas e batidas pela turbamulta dos crentes e rasga caminhos novos, ―"por mares nunca dantes navegado", por ignotas florestas, por ínvios desertos que poucos conhecem. Esse homem ultrapassa, quase sempre, os caminhos tradicionais do passado, e até do presente, e abre novas rotas para o futuro. Toda e qualquer inovação, por mais verdadeira, é, no principio, considerada como erro, e até como perigo social.


Ora, é sabido que, no mundo espiritual, todo homem se sente grandemente inseguro, porque esse mundo lhe é desconhecido, como tudo que apenas se crê, sem dele ter experiência imediata. A única coisa que nos dá certa segurança ao homem inexperiente é o fato de que milhares e milhões de outros homens trilham esses mesmos caminhos, já por séculos e milênios, e muitos deles são bons e relativamente felizes.


De maneira que o fator ―"massa" e o fator ―"tradição nos dão uma espécie de segurança e firmeza, no meio da insegurança e incerteza que, naturalmente, experimentamos por entre as trevas ou penumbras da vida espiritual. E isto nos faz bem. Quando então aparece um homem que parece não necessitar desses 

elementos de segurança garantidos pela massa e tradição, dá-se uma espécie de terremoto que abala as instituições antigas.


Por isso , as sociedades religiosas organizadas, que contam sempre com o fator massa e tradição, dão grito de alerta e de alarme, e previnem seus filhos contra o perigoso inovador, o herege, o demolidor, o apóstata. Quando as sociedades religiosas possuem suficiente poder físico, eliminam do número dos vivos o perigoso demolidor das tradições, e isto ―"pela maior glória de Deus e salvação das almas". Quando não possuem esse poder, procuram neutralizar a ação do herege matando-o moralmente, isolando-o por meio de campanhas sistemáticas de difamação e calúnia...


Existe, aqui na terra, e por toda a parte, a ―"comunhão dos santos", isto é, a misteriosa união de todos os que conhecem e amam a Deus, a fraternidade branca dos irmãos anônimos formada pelos solitários pioneiros do Infinito. E eles sabem qué éprofundamente verdadeiro o que o grande Mestre disse: ―Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles Dois ou três — porque nunca serão muitos no mesmo lugar e tempo, os homens cristificados...


O homem justo é perseguido por causa da sua espiritualidade, tanto pelos indivíduos menos espirituais, como também pelas sociedades organizadas que necessitam de massa e tradição para sua sobrevivência; mas, apesar de tudo, ele vive num ambiente de paz e felicidade, porque está na ―"comunhão dos santos".

Do livro "O Sermão da Montanha", páginas 50 a 54(2003)-Editora Martin Claret-Coleção a Obra-Prima de Cada Autor.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

"Bem-aventurados os tristes"

Antes de tudo, convém distinguir duas espécies de tristeza e alegria, uma tristeza central, permanente, por vezes circundada de alegrias periféricas, intermitentes-e uma alegria  central, permanente, que, por vezes, se acha envolta em tristeza periférica, intermitente.


Pode alguém ser infeliz* e estar alegre-como também poder ser alegre(feliz)** e estar triste. O que é decisivo é a atitude interna, permanente, positiva ou negativa. E essa atitude radica, em última análise, num profundo substrato metafísico, a VERDADE, ou então o seu contrário. Quem tem a consciência reta e sincera de estar na Verdade é profundamente alegre, calmo, feliz, embora externamente lhe aconteçam coisas que o entristeçam -e quem no íntimo das sua consciência, sabe que não está na Verdade é profundamente infeliz*, ainda que externamente se destraia com toda a espécie de alegrias.


Quanto mais triste o homem é internamente, pela ausência de harmonia espiritual, tanto mais necessita ele, de alegrias externas, geralmente ruidosas e violentas. Esse homem não tolera a solidão, que lhe traz consciência mais nítida da sua vacuidade ou desarmonia interior; por isso, evita quanto possível estar a sós consigo...


Quem teme a concentração necessita de toda espécie de distrações para poder suportar a si mesmo. E, como essas distrações e prazeres, pouco a pouco, calejam a sensibilidade, necessita esse homem de intensificar progressivamente os seus estimulantes artificiais para que ainda produzam efeito sobre seus nervos cada vez mais embotados.




Mas, quando o homem acerta em descobrir a bela tristeza da vida com Deus, renuncia espontaneamente a essas horrorosas alegrias da vida sem Deus, ou então satura de espiritualidade todas as suas materialidades, transformando em oásis de vida abundante o seu velho deserto morto.


Aos olhos dos profanos, leva o homem espiritual uma vida tristonha e descolorida... E talvez não seja possível dar ao profano uma idéia de profunda alegria e felicidade  que o homem espiritual goza, porque esta jaz em uma outra dimensão, totalmente ignorada pelo profano.


O homem habituado a certo grau de espiritualidade tem uma imensa vantagem sobre o homem não-espiritual; não necessita de estímulos violentos para sentir alegria, porque a sua alegria não vem de fora e sim de dentro. E as fontes da sua alegria brotam por toda a parte; nem é necessário que saia de casa para encontrar motivos de alegria, porque sua alegria é de qualidade, que não está sujeita às categorias do tempo e espaço. como as alegria ruidosas e grosseiras dos profanos. Um único grau de alegria-qualidade dá maior felicidade do que sem graus de alegria-quantidade...


O homem espiritual da bela tristeza é proclamado "bem aventurado", e tem a certeza de ser consolado. Um dia , a sua bela tristeza de hoje se converterá numa jubilosa alegria de amanhã. E isso pode acontecer mesmo antes de ele morrer fisicamente.Quando plenamente realizado no Cristo, pode dizer como este, em véspera de sua morte: "Dou-vos a paz, deixo-vos a minha paz para que a minha alegria esteja em vós e seja perfeita a vossa alegria". Pode dizer também como um dos mais cristificados que a humanidade conhece: "Transbordo de júbilo em todas as minhas tribulações."...


"Bem-aventurado os que estão tristes- porque eles serão consolados."


*Palavra original do texto é "triste",mas a troquei por "infeliz" para não ficar confuso para o leitor.Como pode alguém ser triste e estar alegre?Então utilizei me do "infeliz",que é um estado mais permanente que o "triste".


*Coloquei a palavra "feliz" entre parênteses,para facilitar a compreensão do leitor,o mesmo motivo da questão acima.




O Sermão da Montanha,páginas 45 a 49.(2003)-Editora Martin Claret-Coleção a Obra-Prima de Cada Autor.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

"Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça"

Esta bem-aventurança visa sobre tudo os insatisfeitos, os descontentes consigo mesmos,os que sofrem o tormento do Infinito, a nostalgia do Eterno, os que vivem ou agonizam numa estranha inquietude metafísica, os que crêem mais no muito que ignoram do que no pouco que sabem.


Antes de tudo. convém esclarecer o que aqui  se entende pela  palavra "justiça". Esta palavra, toda vez que ocorre nas sagradas Escrituras, significa a relação ou atitude justa e reta que o homem assume em face de Deus. Não se refere à justiça no sentido jurídico, do plano horizontal, como é usada na vida social de cada dia. Justiça é, pois, a compreensão intuitiva de Deus(a mística) e o seu natural transbordamento na vida cotidiana(a ética).


Jesus proclama felizes os que têm fome e sede dessa experiência íntima, os que estão insatisfeitos com o pouco ou muito que alcançaram no caminho árduo da sua cristificação. Sabem que estrada imensa lhes resta ainda a percorrer; mas sabem que é glorioso continuarem a andar rumo ao seu grande destino.

Para que o homem sinta em si essa espécie de nostalgia metafísica, deve ele ter ultrapassado certas fronteiras de vivência comum. O homem que ainda vive  totalmente engolfado nos afazeres da lufa-lufa comum dos profanos, caçadores de matéria morta e carne viva, esse não está maduro  para ter fome e sede de um mundo invisível. Antes de sentir essa fome, terá de experimentar o fastio de que agora tem fome."Quem bebe desta água(das coisas materiais) torna a ter sede(das mesmas); mas quem beber da água que eu lhe darei, esse nunca mais terá sede(das coisas materiais)"porque esta água se lhe tornará numa fonte que jorra água para a vida eterna.

O divino Mestre  proclama felizes os que sofrem essa fome e sede da experiência de "Deus",porque eles serão "saciados". É certo que, um dia, em outros mundos, essa nostalgia será satisfeita, porque a natureza não engana seus filhos,impelindo-os a um alvo fictício.

Ainda que o infinito em demanda do Infinito tenha sempre diante de si um itinerário ilimitado, e jamais chegará a um ponto onde lhe seja vedado progredir ulteriormente- porque não há "luzes vermelhas" nos caminhos de Deus-é certo que o humano viajor chegará a um ponto em que a sua compreensão e amor de Deus o tornará profundamente feliz.

Do "Sermão da Montanha",páginas 37 a 39(2003)-Editora Martin Claret-Coleção a Obra-Prima de Cada Autor.

domingo, 5 de dezembro de 2010

"Bem-aventurado os pacificadores"

Pacificador é, pois, aquele que faz a paz, é um "fazedor de paz", um homem que possui em si a força creadora de estabelecer ou restabelecer um estado ou uma atitude permanente de paz no meio de qualquer campo de batalha.


Quem é, pois, verdadeiro pacificador?


Não é, em primeiro lugar, aquele que restabelece paz entre as pessoas ou grupos litigantes, mas sim aquele que estabelece e estabiliza a paz dentro de si mesmo. Aliás, ninguém pode ser verdadeiro pacificador de outros, se não for pacificador de si mesmo. Só um autopacificador é que pode ser um alo-pacificador.


Todos os conflitos externos são filhos de algum conflito interno não devidamente pacificado. Por isto, é absurdo querer abolir as guerras ou revoluções de fora, as discórdias domésticas no lar ou no campo de batalha, enquanto o homem não abolir primeiro o conflito dentro da sua própria pessoa.


O grande tratado de paz tem de ser assinado no foro interno do Eu individual antes de poder ser ratificado no foro externo das relações sociais. Nunca haverá Nações Unidas, nunca haverá sociedade ou família unida enquanto não houver indivíduo unido.


A verdadeira paz é um carisma divino, uma graça, uma dádiva de Deus, que é dada a todo o homem que se torna receptivo para receber esse tesouro. A verdadeira paz não pode ser manufaturada pelo ego humano, porque esse ego é o autor de todas as discórdias que existem sobre a face da Terra. Só quando esse pequeno ego humano se integra no grande Eu divino é que pode surgir uma paz duradoura.

Quem tem firme consciência de possuir a plenitude do ser pode facilmente renunciar à abundância do ter. Quanto maior é o ser de uma pessoa, menor é o seu desejo de ter; e, como toda a falta de paz nasce do desejo de ter, e ter cada vez mais, é lógico que o homem que reduziu ao mínimo o seu desejo de ter, não tem motivo para perder a paz.

A paz é, pois, um atributo do ser, é algo qualitativo, algo que tem afinidade com o EU SOU do homem. O homem que tem plena consciência do seu divino EU SOU não tem motivo para brigar  ou declarar guerra a alguém por causa dos teres , que desunem os profanos.

Por isto, em vez de brigar por causa da capa que alguém lhe roubou, esse milionário do ser oferece tranqüilamente ao ladrão  também a túnica, porque nem a capa e nem a túnica fazem parte do seu ser. E, destarte, ele não sofre perda alguma real: perda dois zeros em vez de um zero, mas a perda de dois zeros(capa e túnica) não é perda maior do que perder um zero(capa).

O homem que estabeleceu a paz de Deus em sua alma é um poderoso fator  para restabelecer  a paz em outros indivíduos e através destes, na sociedade. Os pacificadores serão chamados "filhos de Deus". Deus é paz eterna, infinita, absoluta; não a paz da inércia, fraqueza, vacuidade- mas a paz da dinâmica, da força e da plenitude. Nele não há discórdia, luta, conflito; e quanto mais o homem se aproxima de Deus, pela compreensão e pelo amor, tanto mais a sua vida se assemelha à vida divina pela paz e serenidade. O homem que fez definitivo tratado de paz consigo mesmo, irradia uma atmosfera de calma e felicidade que contagia a todos que forem suficientemente suscetíveis para perceber essas auras pacificantes.

O Sermão da Montanha,páginas 40 a 44(2003)-Editora Martin Claret-Coleção a Obra-Prima de Cada Autor.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

"Bem-aventurados os misericordiosos"

Misericordioso é aquele que tem coração para os míseros; aquele que compreende e ama os fracos, os ignorantes, os doentes, todos os necessitados de corpo, mente e alma, e procura aliviar-lhes os sofrimentos.


Verdade é que o Cristianismo não é, simplesmente, a religião da ética ou caridade;ele é,essencialmente, místico, na sua infinita verticalidade divina mas,também, é certo que ninguém chega a essas alturas místicas da direta experiência de Deus se não se exaurir em caridades éticas para com seus semelhantes; e, depois de atingir as excelsitudes da mística, nunca deixará de manifestar pelo “segundo mandamento” o “primeiro e maior de todos os mandamentos”.


O homem plenamente crístico é dinamicamente solidário.Essa solidariedade dinâmica do homem cristificado não exclui, mas inclui a solidão espiritual do místico.O HOMEM CRÍSTICO É, POR DENTRO, UNICAMENTE DE DEUS, E, POR FORA, DE TODAS AS CREATURAS DE DEUS.


Ninguém pode ser, firme e fecundamente, solidário com os homens se não for, sólida eprofundamente, solitário em Deus. A FRATERNIDADE HUMANA SUPÕE A PATERNIDADE DE DEUS. Não basta “fazer o bem” (dar objetos) — é necessário também “ser bom” (daro sujeito).


O Cristianismo não é uma religião meramente ética, que ensine a fazer o bem —mas é sobretudo, uma religião mística, que exige que o homem seja bom. Fazer o bem é o cumprimento do segundo mandamento, “amarás o teu próximo como a ti mesmo”; ser bom é a atitude do primeiro e maior de todos os mandamentos, “amarás o senhor teu Deus de todo o teu coração, com toda a tua alma, com toda a tua mente e com todas as tuas forças”.


Por isso, os misericordiosos que Jesus proclama bem -aventurados não são apenas pessoas eticamente boas, fazedoras do bem — mas são pessoas misticamente perfeitas,experientes de Deus, e, por isto, essencialmente boas. Esses homens essencialmente perfeitos pelo imediato contato com Deus são também existencialmente  bons pela solidariedade com todas as creaturas de Deus. Quem viveu misticamente o Deus do mundo, vive eticamente com todo o mundo de Deus, porquanto a profunda vertical produz necessariamente a vasta horizontal da ética- é esta a grandiosa  matemática cósmica da Verdade Libertadora.




Quem espera recompensa, pagamento, pelos benefícios que presta à humanidade é egoísta, mercenário, ainda que essa recompensa consista apenas no desejo de reconhecimento ou gratidão da parte de seus beneficiados.




O beneficiado, é certo, tem a obrigação de ser grato,mas o benfeitor não tem o direito de esperar gratidão! O homem crístico está liberto de qualquer espírito mercenário; trabalha inteiramente de graça, nem espera resultado algum externo de seus trabalhos. Trabalha por amor à sua grande missão, pois sabe que é embaixador plenipotenciário de Deus aqui na terra e em outros mundos.




E é por isso, que ele trabalha com o máximo de perfeição e alegria em tudo, tanto nas coisas grandes como nas coisas pequenas. NUNCA TRABALHA PARA TER PÚBLICO QUE O APLAUDA.Por isso, NÃO O EXALTAM LOUVORES, NEM O DEPRIMEM CENSURAS; É INDIFERENTE A VIVAS E A VAIAS, A APLAUSOS E APUPOS, A BENQUERENÇAS E MALQUERENÇAS porque se libertou definitivamente de todas as escravidões do homem profano, do “homem velho”, e se revestiu da leve e luminosa vestimenta do “homem novo” liberto pela Verdade.


Esse homem vive permanentemente na atmosfera serena e sorridente da “gloriosa liberdade dos filhos de Deus” , cujo diploma crístico vem resumido nas seguintes palavras:


“QUANDO TIVERDES FEITO TUDO O QUE DEVÍEIS FAZER,DIZEI: “SOMOS SERVOS INÚTEIS, CUMPRIMOS APENAS PARA A NOSSA OBRIGAÇÃO, NENHUMA RECOMPENSA MERECEMOS POR ISTO......"

(2003)-Editora Martin Claret-Coleção a Obra-Prima de Cada Autor.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

"Bem-aventurados os mansos.."

Indício infalível da verdadeira auto -realização é a mansidão. O homem que encontrou o seu Eu divino é necessariamente manso.


Em que consiste a mansidão?


Consiste na desistência de qualquer violência, física como mental, e sua substituição pela do espírito.Todos os seres que não atingiram a consciência espiritual recorrem à violência paraconseguirem os seus fins. Os irracionais só conhecem violência material.


O homem, depois de intelectualizado, descobriu outro tipo de violência muito mais eficiente, que é a violência mental,violência essa que tem muitos nomes entre os homens; uns lhe chamam astúcia, outros sagacidade, outros ainda política, diplomacia, exploração, etc. No fundo, porém,é invariavelmente o mesmo: são certos argumentos analíticos de que a inteligência se serve para conseguir os seus fins próprios da personalidade do ego.




Quando, porém, o homem avança notavelmente no caminho da sua evolução superior,compreende ele que toda a violência física e mental, sem excetuar a mais alta magia mental,é sinal de fraqueza. Quando o homem descobre em si as potências divinas, desiste definitivamente de toda e qualquer espécie de violência física e mental. Não mais confia em máquinas e aparelhos materiais manobrados pela força do intelecto.




O homem auto-realizado descobriu a essência de si mesmo e de todas as coisas,essência essa que é imaterial, e por isso não mais o interessam as aparências periféricas, que os profanos consideram realidades.Por isto, não há para o homem manso de coração motivo algum para recorrer à fraquezada violência brutal, quando ele possui a força da suavidade e benevolência espiritual.




O espírito da força será substituído pela força do espírito.


As conquistas feitas pela irresistível suavidade do espírito da mansidão e do amor, como as de Jesus Cristo, de Francisco de Assis, de Mahatma Gandhi e outros continuam em milhares e milhões de almas humanas.




As coisas suaves têm duração garantida, embora a sua atuação inicial seja, quase sempre, lenta e quase imperceptível.  É fato multimilenar que os homens que mais realizam em si  a força do espírito do que o espírito da força são credores do amor, da simpatia e entusiástica dedicação dos melhores dentre  os filhos dos homens. Esta sabedoria cósmica que proclama a posse do mundo e dos homens pela suavidade do amor e da benevolência, pela não-violência e não agressividade, é privilégio de poucos homens da atual geração.

Essa promessa de Jesus, de que os mansos possuirão a Terra, parece tão estranhamente parodoxal e contrária a todas nossas experiências, que julgamos necessário investigar um pouco mais o conceito de "possuir". O verdadeiro "possuidor" não é um ato físico, material, mas uma atitude metafísica, espiritual. O verdadeiro "possuidor" é do mundo do ser interno, e não do mundo do ter externo.

Ninguém pode possuir algo ou alguém enquanto esse algo ou alguém não concorda em ser possuído; mas, a partir do momento em que consente ser possuído, o possuidor o possui realmente, porque também o possuído se tornou um possuidor, e há igualdade de posse  de parte a parte.

Só se pode possuir algo ou alguém pelo amor mútuo, bilateral, espontâneo, quando ao "sim" de um responde o "sim" do outro.

Compreendemos facilmente que uma pessoa possa sintonizar as suas vibrações pela frequência vibratória de outra pessoa- mas dificilmente admitimos que uma coisa inanimada e inconsciente, como a terra ou a natureza, possam sintonizar a sua vibração com a do homem. Poderá ela concordar  ou discordar em ser por ele possuída ou não?

Aqui é que está um dos velhos erros do homem profano de todos os tempos e de todas as idades: pensar que a natureza infra-humana, falsamente chamada de insconsciente, não sinta as auras irradiadas pelo homem. Como se a natureza fosse uma massa morta, e não uma presença viva!...

Toda a vida de São Francisco de Assis é uma afirmação permanente de que a natureza não é inconsciente e que compreende a linguagem do homem, quando esta deixa o plano teórico da análise mental e passa para a misteriosa zona vital ou espiritual.

Não é fácil ao homem comum, atingir os pináculos da suprema racionalidade pela ladeira íngrime da metafísica, e poucos conseguem escalar o "Himalaia" por esse lado; mas é fácil ascender ao mais alto "Everest" da suprema racionalidade pelo caminho do amor.

Amar incondicionalmente, é o caminho mais curto e rápido às alturas da compreensão integral e universal.

O Sermão da Montanha,Páginas 26 a 32

"Bem-aventurados os puros de coração"

“Puro de coração” é aquele que se libertou, não só dos objetos externos, mas, também,do sujeito interno, isto é, daquilo que ele idolatrava como sendo o seu sujeito, o seu eu, embora fosse apenas o seu pseudo-eu, o seu pequeno ego físico-mental.


Quem se libertou dos bens materiais fora dele possui o “reino dos céus” , porque o seu reino já não é deste mundo; rejeitou a oferta do ego luciférico “eu te darei todos os reinos do mundo e sua glória” - mas quem se libertou, também, do maior pseudo bem dentro dele, o seu idolatrado ego personal, esse tem a certeza de “ver a Deus”, verá o verdadeiro Deus, porque olha para além do seu falso eu.


De maneira que ser puro de coração é ainda mais glorioso do que ser pobre pelo espírito; ser interiormente livre da obsessão do ego vivo é mais do que ser livre da escravidão da matéria morta.


Aliás, ninguém pode ser realmente livre da matéria morta dos bens externos sem ser livre da ilusão do ego vivo, porque tudo que eu chamo “meu” é apenas um reflexo e uma conseqüência do meu falso “eu”, o ego físico -mental; se o meu falso eu se tivesse integrado no verdadeiro Eu, que é o Universo em mim, não teria eu necessidade alguma de me apegar àquilo que chamo “meu”, os bens individuais.


O egoísta impuro não pode ver a Deus, que é amor puríssimo.

O egoísmo, portanto, a egolatria, equivale a uma cegueira mental. Entre o Deus -amor e o homem egoísta se ergue,por assim dizer uma muralha opaca que intercepta a luz divina. Enquanto o homem não ultrapassar as estreitas barreiras do seu ego personal, está com o s olhos vendados, separados de Deus por uma camada impermeável à luz, que é a impureza do coração.

Por mais que um ególatra ouça falar em Deus, nada compreende, porque com preender supõe ser. Ninguém pode compreender senão aquilo que ele vive ou é no seu íntimo ser.

Entender é um ato mental,mas compreender é uma atitude vital; entender mentalmente é uma função parcial, unilateral do nosso ego humano — compreender é uma vivência total, unilateral, do nosso Eu divino.Quem não é divino não pode saber o que é Deus.

Se é difícil a "pobreza pelo espírito", muito mais difícil é a "pureza de coração". O desapego dos bens externos é o abandono de algo que não fez, nem jamais poderá fazer parte integrante do homem, algo que nunca foi nem pode ser realmente "seu"- ao passo que o ego personal faz parte integrante do homem, é "seu", embora não seja ele mesmo; e por isto a renúncia à sua personalidade  físico-mental em prol da sua individualidade  espiritual é comparavelmente  mais difícil do que  a renúncia à cobiça dos bens externos.


O despertar dessa nova vidência, que existe, dormente, em cada um de nós, requer exercício intenso, assíduo e prolongado, porque o homem tem de superar barreiras já estabilizadas há séculos e milênios. Esse exercício diário e vital consiste, principalmente, numa permanente atitude interna de querer servir, servir espontânea e gratuitamente a todos.

Esse clima de querer servir, espontânea e gratuitamente, remove os obstáculos que existem entre nós e o Todo(Deus), porque diminui gradualmente o egoísmo unilateral e exclusivista e aumenta a solidariedade uniliteral e inclusivista, que uns chamam altruísmo, outros amor, outros ainda benevolência universal.


O Sermão da Montanha,páginas de 22 a 25

domingo, 28 de novembro de 2010

"Bem-aventurados os pobres pelo espírito!"

Poucas palavras do Evangelho sofreram, através dos séculos, tão grande adulteração e ludíbrio tamanho como estes. Escritores e oradores de fama mundial, e até ministros do Evangelho, aderem à blasfêmia de que o Nazareno tenha proclamado bem -aventurados e cidadãos do reino dos céus os "pobres de espírito", isto é, os apoucados de inteligência, os idiotas e imbecis, os mentalmente medíocres.





Se assim fosse, o próprio Nazareno, riquíssimo de espírito, não faria parte dos bem -aventurados e possuidores do reino dos céus.Nem no texto grego do primeiro século, nem na tradução latina da Vulgata se encontre o tópico "pobres de espírito", mas sim "pobres pelo espírito", ou seja, "pobres segundo o espírito"(em grego: tô pneu mati, no terceiro caso, dativo, não no segundo, genitivo; em latim: spiritu, no sexto caso, ablativo não no genitivo).




Na tradução "de espírito" entende -se o genitivo, como se disséssemos: "fulano é pobre de saúde, de inteligência", isto é, falta -lhe saúde, inteligência. De maneira que nem a gramática nem o espírito geral do Nazareno permitem a tradução "pobres de espírito", que, no entanto, se tornou abuso quase universal.




Jesus proclama bem-aventurados, cidadãos do reino dos céus, agora e aqui mesmo,todos aqueles que são pobres, ou desapegados, dos bens terrenos, não pela força compulsória das circunstâncias externas e fortuitas, mas sim pela livre e espontânea escolha espiritual; os que, podendo possuir bens materiais, resolveram livremente despossuir -se deles, por amor aos bens espirituais, fiéis ao espírito do Cristo: "Não acumuleis para vós bens na terra — mas acumulai bens nos céus".




O verdadeiro abandono, porém, não consiste em uma fuga ou deserção externa, massim em uma libertação interna. Pode o milionário possuir externamen-te os seus milhões, e estar internamente liberto deles — e pode, também, o mendigo não possuir bens materiais e,no entanto, viver escravizado pelo desejo de os possuir, e, neste caso, é ele escravo daquilo que não possui, assim como o milionário pode ser livre daquilo que possui. Este possui sem ser possuído — aquele é possuído pelo que não possui.

O que decide não é possuir ou não possuir externamente-o principal é saber possuir ou não possuir. Ser rico ou ser pobre são coisas que nos acontecem, de fora-mas a arte de saber ser rico ou de ser pobre, é algo que nós produzimos, de dentro.

A verdadeira liberdade, ou seu contrário, consiste numa atitude do sujeito, e não sem simples fatos dos objetos. Ser rico não é pecado- ser pobre não é virtude.



Naturalmente, quem é incapaz de se libertar internamente do apego aos bens materiais sem os abandonar, também, externamente, esse deve ter a coragem e sinceridade consigo mesmo de se despossuir deles, também, no plano objetivo, a fim de conseguir a "pobreza pelo espírito",isto é, a libertação interior. Aquele jovem rico do Evangelho, ao que parece, era incapaz de possuir sem ser possuído; por isso, o divino Mestre lhe recomendou que se despossuísse de tudo a fim de não ser possuído de nada — mas ele falhou. E por isso se retirou, triste e pesaroso, "porque era possuidor de muitos bens". Possuidor? não — era possuído de muitos bens.




Quem fez dos bens materiais um fim, em vez de um meio, pratica idolatria, porque"ninguém pode servir a dois senhores, a Deus e ao dinheiro". Quem serve é servo, escravo,inferior. Quem serve ao dinheiro proclama o dinheiro seu senhor e soberano e a si mesmo servo e súdito. Mas quem obriga o dinheiro a servir -lhe é senhor do mesmo, porque usa o dinheiro como meio para algum fim superior.




Bem-aventurados os pobres pelo espírito, os que, pela força do espírito, se emanciparamda escravidão da matéria. Deles é o reino dos céus, agora, aqui, e para sempre e por toda a parte, porque, sendo que o reino dos céus está dentro do homem, esse homem leva consigo o reino da sua felicidade aonde quer que vá...




O nosso pequeno ego humano é muito fraco, e necessita de ser escorado por muitosbens materiais para se sentir um pouco mais forte e seguro mas o nosso Eu divino é tão forte que pode dispensar essas escoras e muletas externas e sentir-se perfeitamente seguro pela força interna do espírito.


Bem - aventurado esse pobre do ego- e esse rico do Eu...

O Sermão da Montanha,páginas 19 a 21